NOVAS VELHAS HISTÓRIAS

O que aconteceu? O blog tem fios brancos, os comentários criaram barriga, a lista de links já tem até rugas. Contraditoriamente, a cidade pacata registra histórias numa velocidade tão grande que não sobra tempo aos jornalistas, isto é, contadores de histórias, para reproduzi-las aqui. E aí o nosso pequeno espaço vai ficando mais triste e abandonado que casarão tombado na Praia Grande – até que surge algo que nos faz lembrar que ele ainda existe – tipo um comunicado do Iphan exigindo a restauração do prédio, sabe?



Saem repórter e fotógrafo pela rua à procura de um personagem, o que sempre funciona. Ou quase sempre – senta-feira à tarde, cinco horas, vários bairros percorridos com caderneta de endereços na mão e ninguém sabe, ninguém viu. Quem sugere é o fotógrafo.
- Lembra daquela mulher que morreu atropelada na Maioba?


Carro de reportagem muda percurso da Vila Embratel para a estrada da Maioba. O objetivo agora é procurar qualquer vestígio dos parentes de Sara Soraya Batista Vieira, atropelada por um ônibus na manhã de 26 de julho de 2007.


Pergunta de cá, bares, quitandas, granjas e materiais de construção. Soraya morreu quando saía para comprar material de construção para iniciar o acabamento da casa que estava construindo na Maioba.

Maranhense de Zé Doca, a casa era para os filhos, que viriam morar em São Luís para estudar. Perguntando de porta em porta, a equipe de reportagem chega à casa que Soraya morreu construindo.


De início, nos assustamos, e duvidamos que seja aquela a construção procurada, tão bem acabada, com muro de pastilhas e pintura reluzente. Pelas frestas do portão de alumínio dá para espiar um jardim de inverno muito bem acabado, enfeitado com gnomos. Nenhum risco na parede, nenhum azulejo fora do lugar na casa que Soraya morreu construindo.


Quem mora na casa é Débora, filha de Soraya. Débora é uma menina tímida de 18 anos e cabelos cacheados, que só pede para não falar da mãe. “Não. Eu não gosto, não falo sobre essas coisas não” A família não comenta sequer sobre o andamento do processo. Não se sabe se há punidos. Mas, mesmo que Débora não me dissesse uma palavra, eu já tinha o lide da matéria.


Semana passada fez quatro meses que Soraya morreu. Semana que vem vai (ou iria) fazer quatro meses de inatividade do “Crônicas”. Tempo demais para que essas histórias fiquem sem ser resgatadas.

Por: Suzana Beckman

Escrito por Crônica da Cidade às 02h07
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É, Praia Grande

 

Um dos pilares fundadores da identidade do bairro da Praia Grande é uma praia rasa que ali havia - antes de se arquitetar e erguer qualquer edificação - distinguida como a praia Grande. Ensina-nos o historiador Carlos de Lima, na obra Caminhos de São Luís, que “a Praia Grande era a contraposição a Praia Pequena, ou Praia da Trindade, na altura da Rua do Ribeirão (também conhecida como Praia do Caju)”.

 

Portanto, o bairro onde estão centrados a Casa das Tulhas, o Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, o Teatro João do Vale, o Museu de Artes Visuais, o Bar da Faustina, chama-se Praia Grande. E, deveria ser Praia Grande sempre. Porém, jornalistas, taxistas, gestores públicos, prostitutas, estudantes universitários e secundaristas, servidores públicos, guias turísticos, professores, enfim, ainda insistem em rebatizar o bairro de Reviver.

 

Frases como: “Vou ao Reviver”. “Nos encontramos no Reviver”. “Passeio pelo Reviver”. “Estou num bar no Reviver”. “Tem reggae hoje no Reviver”. “Hoje é dia de A vida é uma festa no Reviver”, “Trabalho no Reviver”. Invadem os nossos ouvidos, como bestas-feras em noites de lua cheia cruzando as vielas dos vilarejos.

 

As mulas-sem-cabeça que assombram o bairro da Praia Grande devem aprender e apreender, que a palavra Reviver, originária do latim revivere entre outras tantas denotações, pode significar: revivificar, pôr em novo uso, retornar à vida, renovar-se, relembrar, revigorar-se. Enfim.

 

Era esse o intuito do governo estadual ao denominar de Projeto Reviver uma das cinco etapas do Programa de Revitalização e Preservação do Centro Histórico de São Luís, iniciado no fim da década de 70. Nesses 30 anos, o programa já realizou ações nos bairros do Desterro, Portinho, Madre Deus, Centro e centenas delas no bairro da Praia Grande.

 

As bestas-feras desaparecem ao chegar ao cemitério. O Projeto Reviver findou-se no governo Cafeteira. O bairro da Praia Grande com todas as suas lembranças (re)vive a roda-viva de tempos de pujança e tempos de decadência. É assim, o bairro da Praia Grande.

 

Por Itevaldo Júnior

 



Escrito por Crônica da Cidade às 10h30
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Falta-me a matéria

 

Ligo o computador e cobiço escrever dois princípios de crônica. E isso me advém continuamente. O primeiro, e o mais envelhecido - é “Se as coisas são inatingíveis...” - fragmento do breve poema Das Utopias do Mário Quintana. Ainda que desconfie, desconheço o porquê dele sempre vir à cabeça quando arquiteto iniciar meus textos.

Aí vem ele! Não o texto, mas o poema quintaniano:

 

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

 

Busquei elucidação disso. Não a encontrei, achei que fosse a corriqueira falta de argumento. Porém, mesmo motivado, com um assunto preciso e impreterível, os dedos buscam as teclas e surgem na telinha, “Se as coisas são inatingíveis”. É como um código de acesso, uma senha à memória ou à fúria. Deleto as palavras e sigo adiante.

 

Ops! “Seguir adiante” é força de expressão. Abatida o primeiro obstáculo quintaniano, aparece outro, mais recente nem por isso menos assíduo. É iniciar qualquer texto, sobre qualquer tema, com um “abro a janela e vejo...”.

 

Talvez seja, igualmente, força de expressão. Abrir janelas, ainda que imaginárias, é a saída clássica de cronista sem assunto. Um truque que funciona para qualquer ocasião, inspirado no conto popular da baratinha - recriada pela escritora Ana Maria Machado - que varrendo a casa encontrou uma moeda. Foi para janela espiar a vida, ver quem passava e perguntar se alguém queria casar com ela. Diante de sua janela passaram o boi e o cavalo, o leão e o canguru, o gato e o rato. Passou o mundo.

 

No meu caso não tenho tantas janelas assim, que valham a pena ser abertas. Tenho um janelão que dá para a praia da Ponta da Areia, lá em baixo nunca passa um boi - cavalo às vezes passa, a cavalaria da PM em direção aos reggaes -. De qualquer forma, há uns 30 anos jamais por aqui atravessaram um canguru ou leão.

 

Passa uma moça todas às manhãs, olhos grandes castanhos, num biquíni verde, de óculos escuros, corpo pujante. É com a ela que inicio o meu dia. E é com ela que eu findo esta crônica que de repente ficou com um bom assunto.

 

Por Itevaldo Júnior

 



Escrito por Crônica da Cidade às 14h31
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MINUTOS DE DESCANSO

Hoje, às 10h30, na avenida dos Africanos. Inúmeras vezes fizemos matérias sobre esse esgoto que sempre transborda na época das chuvas. Mas nunca achamos essa cena.

Pés descalços, apenas uma bermuda e o sol escaldante. O andarilho resolveu esfriar a sola dos pés calejados. Minutos ali sentado, sem noção dos riscos. Ele levanta e sai andando normalmente. Continua sua caminhada sem rumo. 

Por: Roberta Gomes

Foto: Celular

 



Escrito por Crônica da Cidade às 16h16
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ILHA DO AMOR?




Pôr-do-sol na praia de São Marcos.
Eu sempre achei que não havia nome mais piegas para se referir à ilha de Upaon-Açu...

Foto: Suzana Beckman

Escrito por Crônica da Cidade às 12h16
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CHIQUINHO E O DIA DOS PAIS*

Seu Chiquinho fala pouco e, do pouco que fala, menos ainda dá para entender. A casa em que ele hoje mora na Vila Palmeira fica no alto – mas não em cima de um morrinho simpático que dá para a gente uma vista bonita da cidade. É um morrinho de barro escorregadio que deixa a gente morrendo de medo na hora de subir para a casa de porta e janela.

Entro na casa de paredes sem pintura e seu Chiquinho puxa duas cadeiras de madeira gastas – as únicas que há na casa – e dá para eu e o fotógrafo sentarmos. Ele se instala em uma mesinha alta de pés falsos, as pernas balançando.

Pai de três filhos com idades que variam entre treze e vinte anos, o maior orgulho de Chiquinho é fazer o almoço todos os dias. Tem sido assim nos últimos onze anos.

***


O ano era 1996. Em algum momento daquele ano seu Chiquinho desceu no terminal rodoviário de São Luís. Num dos braços, uma valise. No outro, a pequena Stéfanie, de menos de dois anos, que ainda mamava e por isso chorava de fome.

Disse que vinha de alguma pequena cidade paraense próxima à serra de Carajás. “Eu fui para lá porque tinha aquele negócio da Serra, né? Achei que ia (sic) ser bom pra gente”. Não foi. No Pará, Chiquinho perdeu até a mulher. Desquitado e com três filhos, ele voltou para o Maranhão.

Atendendo ao chamado rude de Chiquinho, os outros dois meninos – um de cinco anos e outro de nove – seguem o pai pela confusão de cadeiras e malas e pessoas passando apressadas pelos portões de embarque.

Se fosse hoje, ele teria se imprensado com Tiago, Diego e Stéfanie nalgum ônibus da Menino Jesus de Praga, linha Cidade Operária via São Francisco, e ido muito adiante do terminal do São Cristóvão.

Seu Chiquinho finalmente chega no quartinho alugado na Cidade Operária. Deposita as poucas bagagens no chão frio. Os três filhos o seguem com os olhos interrogativos e lamuriosos. Ele devolve o olhar, em silencio. “No começo eu só sabia olhar para eles e pensar ‘e agora o que é que eu faço’”?

A parte mais difícil foram os primeiros anos. Sem outro meio de ganhar a vida e precisando ficar meio período em casa para cuidar da família, o único ofício que ele conseguia era o de vender de porta em porta. Passou a revender panos de prato bordados. Não me contou de onde comprava. Ganha R$ 10 por dia. Em épocas mais felizes, vendia também peta de padaria. “Aí o homem parou de fazer, né?”

Se eles brigam?

- Só por causa de pedaço de carne, diz Stéfanie, hoje com 13 anos.
- Como assim? - Pergunto.
- Ah, tem dias que não dá pra todo mundo. Aí a gente briga pelos pedaços de carne.

***


Desde a última sexta-feira, ainda não voltei na casa de seu Chiquinho. Não duvido de que no Dia dos Pais ele tenha preparado o almoço como sempre. Quem sabe até com direito a uma porção extra de carne.

Seu Chiquinho, Feliz Dia dos Pais.


Por: Suzana Beckman

* Texto posta com atraso devido a greves, assaltos e interdições em rodovias federais.


Escrito por leia e comente... às 21h15
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LOUVAÇÃO AOS NÚMEROS

O "Crônica da Cidade" (blog) está próximo dos mil acessos, Romário marcou seus mil gols, São Luís ainda não deve chegar a um milhão de habitantes. Dizem que São Luís irá completar 400 anos... Isso é, dependendo dos nossos pais... Enfim, esses números...

Antes de mais nada, esse texto é um protesto. Protesto contra os protestos feitos por qualquer aluno que se preze (inclusive eu) no ensino fundamental e médio contra os números disfarçados em fórmulas matemáticas e físicas. Ode à ode dos números. Infelizes, solitários, mal compreendidos e, no fim, importantes. É regra: esquecemos as fórmulas, se e somente se (como diria Bonjorno), esquecemos as relações que elas têm com a nossa vida.

Quantos meses de namoro? Quantos ‘ficas’ em uma mesma balada? Quantos anos completei e quantas pessoas haviam na minha festa surpresa? Faltam quantas horas para o nascimento do meu filho? Faltam quantos minutos para o início do episódio do Chapolin Colorado ou para a próxima corrida de F-1? Quantos pontos o Flamengo está atrás do próximo concorrente? Ou quantos jogos o time precisa vencer para chegar à liderança do Brasileirão? Ou seja, quantos, quantos, mais quantos, multiplicados por quantos, divididos por quantos, subtraídos por quantos.

Somos seres matemáticos, ainda que provem o contrário. Algumas almas recorrem à numerologia visando a felicidade: os cristãos tentam reger normas de condutas por meio dos dez mandamentos... Números e mais números! Independentemente das discussões filosóficas intrínsecas às mesas de bares ou aos papos de namorados dominicais, somos vítimas dos números, e, dependemos deles (infelizmente ou não).

Esqueçamos os traumas da infância e louvemos aos números. É verdade que eles pregam algumas peças, como a contagem do Censo 2007 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que deve apontar que a capital, São Luís, não terá um milhão de habitantes em agosto de 2007, algo que vem tirando o sono de dezenas de vereadores. Aliás, isso não é culpa dos números. Mas dos homens que os produzem. Em São Luís, por exemplo, não se sabe muito, quando se fala de números. Dizem que temos cerca de 200 mil residências, dizem que temos centenas de bairros... Nunca dizem as rendas dos jogos do Campeonato Maranhense!

Louvemos aos números, eles merecem. Só por curiosidade, esse texto tem exatos dois mil caracteres (sem espaços)! Podem contar!

Por: Wilson Lima



Escrito por leia e comente... às 17h21
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DOMINGO É DIA DE QUÊ?

Mais um domingo. O primeiro domingo de agosto de 2007. Dia ensolarado, dia de praia, de almoço com a família, de cinema lotado, de futebol na TV. Dia em que também não passa nada que preste na mesma TV. E quem não tem TV por assinatura está ferrado. Mas ainda bem que existem as locadoras: comédia, romance, drama, terror, documentário, temporadas de séries... às vezes, nada que combine com o domingo.

 

Um livro pode ser a melhor saída, ou até a primeira escolha. Mas domingo também é dia de não fazer nada disso. Resolver ficar sozinha, no silêncio sufocante da casa vazia. Apenas o barulho do ventilador de teto do escritório ou do vento balançando a persiana da janela. Questão de opção, nada mais.

 

Lembrei que pode ser dia de adiantar as coisas do dia-a-dia. Trabalhos, relatórios, releases, pesquisas... Ah! A internet voltou a funcionar. Domingo também é dia de navegar na rede mundial. Ainda bem que ela existe! Por outro lado, enche o saco. E como!

 

Sempre achei e continuo achando o domingo um dia melancólico. Não tem jeito. Várias pessoas tentaram mudar essa minha impressão. Não teve jeito.

 

Domingo é Dia das Mães, domingo é Dia dos Pais, domingo é Páscoa. Domingo é domingo e acabou. Mas feriado cair no domingo... ninguém merece!  

 

Domingo é dia de encontrar os pais, do lanche com os amigos, de dormir até mais tarde, de sair da dieta. Domingo também é dia de namorar. Não para uma conhecida minha, que namora todos os dias, só não no domingo. Estranho e cômico.

 

Para os religiosos, ou não, domingo é dia de missa, dia de culto. Seja qual for a religião. Por alguns bairros de São Luís sempre é possível ver aquela família inteira caminhando para chegar à igreja. Cenas de domingo. Tenho certeza que todo mundo tem alguma registrada.

 

Mas se isso tudo não basta, ou não agrada, acho que é melhor nem acordar no domingo. Domingo também é dia de dormir. É o que eu vou fazer agora.     

 

 

Por: Roberta Gomes



Escrito por leia e comente... às 13h28
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Alma de Botequim

O botequim é um templo. Pode sê-lo, também, estado de espírito. Os mais xexelentos então... Boteco é o reino onde os solitários se sentem comboiados de seus copos. Cismando. Refletindo. Arrazoando. Muitos, ainda que não desnudos, lembram O Pensador, do escultor parisiense Auguste Rodin.

Boteco é o habitat de confrades de copos ou tão somente o lugar de prosear com um amigo. Aliás, nada mais perfeito do que uma amizade de botequim. Os amigos não se visitam nas respectivas casas. Não tomam grana emprestada e não pedem para subscrever promissória.

No boteco fala-se de mulher – quase nunca da nossa –, e de política, música e futebol. Mas não vale debater de modo tenso. É que não se vai ao botequim para esquentar a cachola.

Camaradas de boteco são como namorados recentes: um quer acarinhar o outro e não divergem nunca.

O botequim é um lugar sagrado. Numa mesma prosa, um companheiro de ensina as saídas para os problemas materiais, um outro traz as últimas novidades para resolver as questões no plano sentimental. Desconfio de que até sejam melhores do que o gerente do banco, a psicanalista e a cartomante.

Repetidas vezes disse a minha analista: - Deixe seu consultório com mais cara de boteco. O botequim é mais democrático, os dois podem falar. Ela não me ouviu. No consultório freudiano ou junguiano do boteco, ora se é analista, ora se é paciente. Desisti.

Fui buscar os santos. E boteco que se preze tem de ter imagem de santo. São José de Ribamar, São Sebastião, São Jorge, São Lázaro, São Francisco de Assis, enfim. Mesa de botequim é quase um confessionário.

Boteco é um lugar sagrado. Recinto que inspira porres e papos, músicas e cantadas, frases e compassos, verdades e mentiras. Ainda que se sobreponha as mentiras sobre as verdades. Viva o botequim! Se Deus quiser e cachaça não faltar.

Por: Itevaldo Júnior



Escrito por leia e comente... às 09h26
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FUI!

Nos últimos dias, várias pessoas me perguntaram o quê eu ainda estou fazendo em São Luís (...). Sorrio, respondo que vou ficando por aqui, pronto e ponto! O engraçado é que sair daqui, para mim, sempre foi uma certeza. Foi. A essa altura já não é mais.

 

Mas dizer que não pretende morar fora, ir embora de vez e nunca mais voltar é pedir para ouvir. Criticam, chamam de besta, de burro, sabe lá mais o quê. O “bom” está lá embaixo, lá fora, ficar aqui é desperdício. Conselhos de ludoviscenses. Frustrados talvez por nunca terem conseguido sair da sua cidade natal ou por pura vontade de opinar na vida dos outros? Os dois.

 

Já disse um amigo: “Esse povo tem mania de ser derrotista”. Concordo. Essa história de ser brasileiro e não desistir nunca está é longe de se encaixar por aqui. Todo mundo reclama, esculhamba, fala mal. E tentar mudar, alguém se habilita? Sei não...

 

Ah! Ia esquecendo! Tudo é culpa dos governos, governantes, políticos, servidores, ladrões, ou qualquer outro nome que queiram dar. Acreditem. Não fazemos parte disso tudo e a iniciativa própria também não existe. Só os “inteligentes” possuem: vão embora para a cidade grande.

 

É, pelo menos lá a roupa pode ser do seu agrado, as atitudes podem ser verdadeiras, o carro pode ser do modelo 2005, 2004, e até de 2003. Até falar sobre alguém na mesa de um bar ou restaurante é mais tranqüilo, ninguém está prestando atenção na sua conversa ou lhe analisando dos pés à cabeça. Vida tão mais simples e fácil.

 

Minha nossa, quanta reclamação! Até pareço com essas pessoas. Ué, também sou ludoviscense, esqueceu?! Acho que mudei de idéia, deixei de ser “besta”. Vou embora daqui. Tchau!

 

 

Por: Roberta Gomes



Escrito por leia e comente... às 22h04
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LADO PAULISTANO DE SÃO LUÍS


A imagem pode ser confundida com as imediações do aeroporto de Congonhas. Mas não se assuste, ainda estamos no Vinhais...





Foto: Suzana Beckman

Escrito por leia e comente... às 16h35
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A ESPERA


Oito e quinze da manhã. Sara Soraya Batista Vieira, 39, morre atropelada na estrada da Maioba por um ônibus que, segundo populares, não vinha em alta velocidade. O motorista se evade do local. Os parentes de Soraya são alertados e acionam o Instituto Médico Legal (IML).

Oito e meia da manhã. O vidro do ônibus que colidiu com a bicicleta de Soraya está quebrado. Com a pancada forte, vários órgãos internos dela se soltam e o abdômen distendido leva os curiosos a tecerem suas próprias conjecturas: Soraya estaria grávida. A família não confirma a informação.

Nove horas da manhã. A família de Soraya faz novo telefonema. Vizinhos, líderes comunitários, policiais, transeuntes e desocupados se aglomeram em círculo ao redor do corpo. A bicicleta que Soraya guiava no momento do acidente está caída e toda retorcida alguns metros atrás. Uma pequena poça de sangue já se forma ao redor do cadáver.

Nove e meia. O sol fica mais quente. A aglomeração de curiosos já é tão grande que quase não é mais possível enxergar o corpo de Soraya estendido no chão. O sangue da mãe de dois filhos se mistura com a terra e a lama dos buracos da rua. Nova ligação dos filhos de Soraya é feita para o IML.

Dez horas. Os filhos correm à casa e trazem um lençol para cobrir o corpo de vítima, enquanto telefonam mais uma vez. O trânsito é lento na estrada da Maioba.

Dez e meia. Um parente de Soraya sai do local do acidente para o IML. Um dos dois esgotos abertos a poucos metros do corpo da maranhense de Zé Doca cheira horrivelmente. A água do esgoto jorra e escorre pela rua. O congestionamento aumenta. A imprensa chega ao local.

Onze horas. O parente de Soraya volta, com a promessa de que o rabecão não demoraria a chegar. A multidão não dispersa, e cada minuto é um braço diferente a levantar o lençol para observar o corpo. O meio-fio de terra, do lado oposto àquele em que está o corpo de Soraya, mistura-se com a água dos esgotos, vira lama e desmorona.

Onze e meia. A rua inteira vira lama. Líderes comunitários ameaçam interditar a estrada e iniciar um protesto. Para proteger o corpo de Soraya até a chegada do rabecão, uma granja próxima cede alguns caixotes de plástico. Feitos para armazenar as aves para a venda, os caixotes agora são dispostos em círculos ao redor do corpo.

Onze e quarenta e cinco. Uma viatura do IML finalmente recolhe o corpo de Sara Soraya do asfalto fervente. Três horas e quarenta e cinco minutos depois, o corpo soerguido pelos braços do perito ainda conserva a mesma posição do momento da morte, com os braços estendidos para o alto. Súplica?

Apenas uma viatura para toda a Grande São Luís, justifica ele.

E se houver outras Saras Sorayas Marlenes Raimundas Marias?, pergunto.

Também terão que esperar.



Por: Suzana Beckman

Escrito por leia e comente... às 22h15
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O Vírus é Prata

 

Ano de 1982. Nenhum dos meus compartes de blogue era nascido. Na TV, o Programa do Chacrinha era a MTV tropicalista da época. A cantora Elis Regina morre de overdose. O melhor time de futebol que vi jogar, a Seleção Brasileira de 82, é eliminado da Copa do Mundo. O mega hit do planeta era We Are The World, canção beneficente em prol do combate à fome na África.

 

Um adolescente estadunidense de 15 anos, Richard Skrenta cria, naquele ano, um “bichinho” que se tornaria um astro na orbe da informática: o vírus de computador. Batizado de Elk Cloner, ele estreou infectando os computadores da Apple II.  Não era dos mais destrutivos.

 

Ao celebrar as Bodas de Prata – 25 anos – os vírus evoluíram. E muito. Inauguraram roteiros virtuais que incluem cenas de discos rígidos aniquilados, dados destruídos, sites derrubados, informações roubadas e empresas paralisadas. Tornaram-se uma praga.

 

Os vírus começaram se alastrando via disquete. Creio que os pendrive não lembram dele. Com a chegada da internet, passaram a se propagar por meio das estradas digitais. São os “bichinhos” virtuais mais difundidos atualmente. Quem já não foi “infectado” por um deles?

 

Com o advento da internet, os vírus ficaram famosos. Ganharam nomes tão divertidos e surpreendentes quantos os das operações secretas da Polícia Federal brasileira, que caçam outras espécimes de vírus. Esses, em muitos casos, letais.

 

Ficaram famosos os vírus Sexta-Feira 13, Jerusalém, Anna Kournikova (tenista russa), Melissa, Love Letter (carta de amor), Michelangelo, I Love You (eu te amo). No submundo da internet transitam ainda os spyware e cavalos-de-tróia, parentes consangüíneos dos vírus. São lobistas cibernéticos. Eles têm a tarefa de abrir portas para os golpistas.

 

Nos primórdios dos anos 90, territórios virtuais e reais são afetados pelo Vírus da Traição. Aprendi que não há vacina e nem antivírus. Ele já surgiu com as mais diversas extensões virais: .exe, .pdt, .bat, .doc, .dem, .pt, .psdb, .pif, .paf, .prof, .pof. Enfim. Putz! Apareceu um vírus.

 

Por: Itevaldo Júnior

 



Escrito por leia e comente... às 15h46
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SOLIDÃO DE UMA ALAMEDA - POR BINÉ MORAIS

Uma alameda D. Pedro II solitária, fitando a Avenida Beira Mar. Dia 23 de julho de 2007, às 17h40...  

Foto: Biné Morais



Escrito por leia e comente... às 17h36
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O MENINO


Três da tarde – ela estica o pescoço pela janela para espiar a hora num daqueles termômetros das rotatórias. Checa a temperatura, trinta e dois graus e ouve rock anos 70 no fone de ouvido enquanto recosta a cabeça na janela do ônibus pra um cochilo de dez minutos até o Renascença – ela odeia deixar trabalho para a tarde mas, fatalmente, é o que quase sempre acontece.

- Quer, moça?

Unhas sujas e um pacote de bombons de morango, e um pequeno bilhete xerocado estendido em uma das mãos. E uma camisetinha amarela surrada, e um calçãozinho que deveria ter sido vermelho em seus dias mais felizes.

Nos olhos do menino ela tenta ver tristeza, desespero, raiva, carência. Ou só fome. Mas nem isso, ele só estende o braço fino com o olhar opaco. O menino aparentava uns oito anos, mas talvez tivesse mais. Oito anos de que Casimiro de Abreu não teria saudade nunca. E bombons de morango numa vasilha toda arranhada

- Moça?

Ela aceita o papel e os bombons meio automaticamente. O menino de roupas desbotadas e olhar opaco escreveu que tem pais doentes e que “poderia estar roubando mas prefere pedir” ou qualquer coisa assim. Ela nem presta atenção, na verdade, que “esses meninos falam todos a mesma coisa”, comenta a moça sentada no banco de trás. O menino passa por todos os assentos do ônibus. Alguns recebiam o papel com educação disfarçada. Outros recusavam logo de saída. E o menino, sempre a mesma coisa: "quer, moça?", "quer, moço?".

A repórter sentada no banco do ônibus já viu várias vezes situações como esta e sempre aparece alguma senhora de rosto simpático para perguntar ao menino: “Menino, cadê a tua mãe?”

Mas não havia nenhuma senhora simpática no ônibus e por isso o menino só espera encostado na porta – esperando o quê? Cadê a mãe dele? O menino vende bombons de morango, fruta que ele provavelmente nunca experimentou. Aliás, será que o menino está na escola? Ela morde a língua para não perguntar. Será que comprar um bombom ajuda? E se ele comprasse a caixa inteira? Iria salvar a vida do menino? Aliás, quem era o autor que qualificava esses momentos de aperto na garganta de "sentimentalismo burguês"?

Ela desce do ônibus em frente ao Tropical Shopping e vai trabalhar, sem bombom nem caixa de bombom. E só ficou o rock anos setenta no ouvido enquando ela observava o menino saltar e atravessar correndo o semáforo fechado da avenida Colares Moreira. Camisetinha amarela com calção vermelho. Bombons de morango. "Quer, moça?".



Por: Suzana Beckman

Escrito por leia e comente... às 15h17
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